O gargalo do Bitcoin


Prestes a completar 10 anos desde a sua criação, o Bitcoin atingiu seu primeiro gargalo, após sua cotação subir em menos de 12 meses de 500 dólares para 2.500 dólares. A situação levou a um split (uma divisão em duas ou mais moedas), em função do aumento da demanda, que esbarrou numa limitação técnica de transações por segundo.

Quando foi criado por Satoshi Nakamoto – cuja identidade verdadeira até hoje é desconhecida – o Bitcoin nasceu com uma especificação: as transações são completadas quando um “bloco” (block) é adicionado ao banco de dados Blockchain.

Os blocos são limitados a 1 MB a cada 10 minutos e esta limitação foi imposta para se evitar que usuários mal intencionados inserissem blocos muito grandes, que seriam difíceis de serem baixados num computador comum. Isto significa que criou-se uma limitação teórica de 7 transações em bitcoins por segundo. Segundo levantamento recente do site Luno, uma dentre as muitas Bolsas de compra e venda de bitcoins, na prática, esta quantidade é ainda menor: atinge no máximo 4 transações por segundo.  Apenas como referência, a Ethereum, uma criptomoeda concorrente, é capaz de realizar 20 transações por segundo.

Já a PayPal afirma que no Cyber Monday de 2016 processou 450 transações por segundo. Enquanto que a Visa assegura ser capaz de efetuar 56.000 transações por segundo. Estas comparações são apenas ilustrativas, porque as operações com cartão de crédito são conceitualmente diferentes das transações com criptomoedas, porém são válidas como uma referência.

Ficou claro, portanto, que era necessário se fazer um upgrade no protocolo do Bitcoin. Porém, como trata-se de um código aberto, era necessário chegar-se a um consenso dentro das duas principais comunidades envolvidas: a de desenvolvedores e a de mineradores. Os desenvolvedores estão fortemente concentrados na Califórnia, enquanto que os mineradores estão predominantemente na China.

Os primeiros desenvolveram uma solução chamada “Segregated Witness” ou “segwit”, na qual são permitidas mais transações por bloco, resolvendo o problema da escalabilidade. Já a comunidade de mineradores desenvolveu uma outra solução, chamada “Bitcoin Unlimited”ou “BU”, na qual o tamanho dos blocos é variável e determinado pela oferta e demanda. Entretanto, a maioria dos especialistas considerou esta solução pobre do ponto de vista técnico e muito arriscado colocá-la em produção. Assim, a segwit ganhou força até que, na última hora, uma outra solução apareceu, com surpreendente adesão, chamada Bitcoin Cash, que propõe aumentar o tamanho do bloco para 8 Mb.

No último dia 1 de agosto, aconteceu o chamado “hard fork” e cada wallet (sites ou aplicativos que armazenam as criptomoedas) precisou optar por uma solução para conversão. O Bitcoin Cash triplicou de valor em três dias, após ter sido a opção escolhida por sites relevantes, como o Coinbase.

Minha percepção é de que todo este problema adicionou complexidade a algo que já não era tão simples assim e esta complexidade pode retardar a expansão da base de usuários de criptomoedas. Usuários comuns, que já têm certa dificuldade em entender como elas funcionam, têm agora um novo desafio: compreender o que está acontecendo, como as novas soluções endereçam o problema atual e o quão seguras elas são. Os comunicados das Bolsas de Bitcoin para seus clientes e as recomendações dos sites especializados seriam capazes de gerar pânico em qualquer mercado mais tradicional.

Alguns aconselhavam a sacar seus bitcoins e mantê-los em seus computadores particulares até alguns dias após o split, para evitar que eles fossem perdidos. Outros falavam em convertê-los o mais rápido possível, antes do dia 1/8; e praticamente todos sugeriam não efetuar qualquer transação nos dias anteriores e posteriores ao split, alertando que as transações poderiam ser registradas em sistemas diferentes e, como eles não são centralizados, as criptomoedas poderiam se perder no caminho.

Tudo isso expõe os desafios de uma tecnologia verdadeiramente disruptiva e descentralizada. O potencial de utilização é enorme, porém o processo de comunicação, por não ser centralizado, não é uniforme. Com isso, as incertezas normais de qualquer inovação disruptiva se potencializam. O que vimos nos últimos dias é a prova disso. A solução para o gargalo acabou sendo um balde de água fria.

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